Cotidiano Cão

por Raphael Gybak

Barulho no quarto, antes da luz.
(Já acordaram?)
Um cheirinho de pressa no ar...

Banho rápido, dente escovado,
passos pesados pelo assoalho.
Esqueceram que aqui
também mora um cão?

Lambem telas com os dedos,
numa estranha devoção!
Comem de pé, sempre sozinhos.
(Será que não andam em bando?)
E já não me oferecem petiscos...
Ah, que saudade de quando
eu era apenas um filhotinho!

Chegam tão tarde, saem tão cedo.
Ninguém me leva para dar um passeio!
Eu choro num canto e eles, no banho.
Silêncios iguais, rancor passageiro.

Houve uma vez em que eu lati!
Mas não me ouviram, nem me viram.
Falam pouco, dormem mal.
Hoje, cansados demais para mim.
Amanhã? Tudo igual.

“O melhor amigo do homem é o cão”,
e vivem quase como inimigos de si.
(Seria algum tipo de competição?)

Às vezes, penso:
quem usa coleira?
Quem é que está preso?
Eu? Ou eles?