Joanna
por Raphael Gybak
A ausência dela fazia mais barulho que o som do DJ. Joanna sempre chegava antes da meia-noite, como se o universo dependesse da pontualidade de sua purpurina. Dessa vez, passou da uma, passou das duas… e nada.
Seus amigos, encostados na parede, do lado de fora da casa, com copos mornos de vodca e energético, se entreolhavam em silêncio. Desde que Joanna sumiu, até o gelo parecia derreter mais rápido.
“Deve estar montando aquele look apocalíptico”, tentou brincar um dos meninos. Ninguém riu. Não porque era uma piada ruim, mas porque todo mundo ali sabia que Joanna não atrasava. Joanna nunca faltava. Ela era dessas: presença que hipnotizava, ausência que causava crise de abstinência.
No banheiro, alguém sussurrou que viu uma notícia estranha na TV local. Uma travesti encontrada na beira da estrada. Sem nome, sem rosto, sem nada. E a imprensa talvez nem soubesse a diferença entre uma travesti e uma drag queen.
O grupo de amigos se apressou para entrar na festa. Na entrada, o segurança trocou de assunto. No palco, uma drag substituiu Joanna e puxou Lady Gaga.
“Rejoice and love yourself today
‘cause, baby, you were born this way…”
A balada continuou. Era isso que ela fazia: continuar.
Mas naquele sábado, não houve alegria na pista de dança e ninguém dançou com os olhos fechados.