Multidão

por Raphael Gybak

Cheio, lotado.
Vazio, silêncio.
Um grito que ninguém ouve
(nem eu).

Sorrio (socorro!):
é o protocolo social.
Um gesto que aprendi
como quem aprende
a lavar as mãos
sem sujar a alma.

Alguém falou comigo?
(Ou é o eco de mim mesmo?)
Os rostos passam, como estações,
sem parar em meu corpo
estranho.

Eles não falam comigo,
só ouvem quando digo
tudo o que já pensam.
Mas não quero ser a confirmação
do que esperam,
e sim o olhar sincero que incomoda.

Às vezes,
sou o "você está bem?",
e a resposta é um sorriso torto
e aquele ar de desdém.

Às vezes, nem pergunto mais.
Um cansaço de existir
sempre em voz baixa
(porém de cabeça erguida).

Sou uma ausência que anda,
um corpo invisível que tropeça
no espaço infinito da multidão.
Uma alma inteira
esperando a colheita
de outras almas inteiras.

E na fartura de gente,
a miséria que habita,
a fonte em que ainda há vida,
no futuro incerto e presente
dessa solidão.