O servo

por Raphael Gybak

Começou pregando debaixo da mangueira, com um violão e os pés descalços.

A fé era o pão que dividia com os vizinhos.

Veio gente de longe, veio choro e promessa, veio dízimo e oferta.

Com o tempo, ergueu um templo. Depois, dois. Três...

A gravata ficou mais justa, os sapatos mais caros. Natural.

Já não orava de joelhos - doía. Normal.

Colocou ar-condicionado no altar e blindagem no carro. Merecido.

Disse que era “para a honra e glória de Deus”. Os fiéis aplaudiram.

E continuaram chegando.

Falava em milagres, porém contava os lucros.

Falava em humildade, porém abençoava só após o depósito.

Um dia, no fim do culto, caiu em prantos.

Mas era de raiva: os servos haviam doado pouco dinheiro.