Quem é de verdade?

por Raphael Gybak

Um compromisso inadiável todas as manhãs: parecer feliz.

Antes mesmo de levantar da cama, ajeita os cabelos, arruma o travesseiro e lá vai o story: #bomdia!

Câmera ligada, uma mão na escova, a outra no celular, um sorriso cheio de pasta de dentes. Que a gente tenha uma semana incrível! #secuidarfazbem

Antes de postar, coloca um filtro. Um só não, dois, três… #naturalidadeimporta!

O café é só uma mesa posta, preparada na véspera, para garantir a perfeição. Enquanto a xícara esfria, ela procura o melhor ângulo, ajeita a legenda, revisa o texto.

Então, senta-se. Não para saborear o café, mas para conferir o engajamento: coraçõezinhos subindo, comentários chegando, mensagens na DM. Nenhuma bebida poderia trazer mais energia que aquele pequeno shot de dopamina digital.

No caminho para o trabalho, a cabeça fervendo: precisa garantir o próximo post.

Tira foto da paisagem. Puts! Já postou assim na semana passada.

Uma selfie no Uber? Esquece, teve uma igual no final de semana.

Quem sabe a fotinho do cachorro da prima, que recebeu no grupo do WhatsApp? Talvez pareça estar roubando o pet alheio e não pegue tão bem.

Graças aos céus, o carro para no semáforo e o muro pichado tem a frase perfeita que ela nem entendeu muito bem: “Quem é de verdade sabe quem é de mentira”.

Foto. Filtro. Emojis. Postada! Ufa! Mas agora ela precisa pensar no próximo post.

E assim correm os dias, mais rápidos que os dedinhos nervosos rolando pelo feed.

O passeio de sábado no parque? Uma sequência de registros cuidadosamente espontâneos. A trilha não tem cheiro de mato, nem som de passarinho como ela escreveu na legenda (ou talvez tenha e ela não percebeu). Só viu o clique, o post e a espera pela valiosa recompensa de likes, shares e comments.

O date? Um story do vinho, outro da sobremesa e, claro, uma foto de mãos dadas. Afinal, se não postou, não amou. O papo? Irrelevante. As risadas? Só as que cabem nos 15 segundos de vídeo. E o depois? Não há.

Quer dizer, o ghosting mútuo até vira tema de um desabafo com direito a lições de moral, indiretas e um quase choro. Conteúdo garantido! Seus #seguimores irão gostar.

No fundo, ela é quem não sabe mais muito bem do que gosta. Come onde dá foto boa, viaja pra onde o cenário engaja, escolhe o namorado pela quantidade de seguidores e vive de acordo com as trends do momento.

Vive mesmo? Talvez só finja para manter-se em alta.

E toda noite, quando a tela se apaga, sobra… ela. Só. Por um segundo, se pergunta se, no fim das contas, alguém - além do algoritmo - realmente se importa.