REFÚGIO

Era uma vez um refúgio.
Para lá navegamos enquanto o mundo se consumia em guerra.
E enquanto os bravos se levantavam nos pavorosos campos de batalha
para logo após caírem ao chão, reduzidos a corpos sem vida,
nosso barco singrava as águas rubras e revoltas
sobre a terra mergulhada em sangue.

O mal também avançava
sobre os que lutavam e sobre os que permaneciam inertes,
calando vozes, roubando almas, tomando mentes,
cobrindo sorrisos com transparentes lágrimas,
intimidando gestos de afeto e substituindo, enfim,
o amor por frieza e desconfiança.

Nosso barco, porém, seguia sem medo,
alheio à maldade humana, em oração e silêncio, 
nos levando para tão longe e a cada instante tão perto
de nos apartar desse mundo em chamas.

Na verdade, foi quando o sol magoado perdeu seu brilho
e repousou nas serras despertando a longa noite, 
foi quando os jardins secaram seus últimos galhos
e nas flores murchas o ar, outrora fresco e perfumado,
deu lugar ao odor pútrido da terra moribunda que exalava à morte,
que nós decidimos… fugir!

Se a guerra não valia a pena,
mais do que simplesmente sobreviver, queríamos viver!
Antes que o fim chegasse, embarcamos sem olhar para trás.

Ainda vejo a esperança morrendo nos olhares daqueles que ficaram,
o desespero nascendo e crescendo como erva daninha,
o ódio brotando como flor maldita no solo fértil do desalento.
Mas nada quiséramos fazer e nada poderíamos ter feito.

Sinto que a destruição está a caminho,
e a dolorosa verdade é que não poderemos evitá-la.
Mas o que me conforta agora é que estar longe do mundo, nos aproxima.
E assim, tão perto do que realmente somos e por quanto tempo ainda restar,
podemos nos abrigar, um no outro,
num refúgio de... amor!

(imagem: Alter do Chão - PA, foto e poesia de @raphaelgybak)

Local escuro onde se vê três chamas acesas, duas ao fundo e uma em primeiro plano.