A Pele de Outro Alguém

por Raphael Gybak

Conto publicado na Revista No Fio #1

Parte 1 – Espelhos

Numa manhã qualquer, sua pele começou a se rebelar. Primeiro veio uma coceira surda, depois, pequenas fissuras que se abriram sozinhas. O lençol, tingido de um vermelho úmido e quente, denunciava a mudança. Sentia-se despindo as camadas da própria epiderme que, frouxa em alguns pontos, apertada em outros, era um tecido que não lhe obedecia.

Quando passou diante do espelho do banheiro e viu, de relance, os ombros e o pescoço desfigurados pela descamação, não teve coragem de olhar para o rosto. O estalo foi imediato: pegou o cabo do rodo e quebrou o vidro num golpe seco. Os cacos, que ela procurou não encarar diretamente, caíram sobre a pia molhada. Junto deles, pedaços da pele morta, misturados com um cheiro acre de sangue fresco.

Depois disso, um a um, todos os espelhos da casa foram despedaçados. Até que restou apenas o som metálico dos estilhaços e um chão repleto de pedaços de si. Maria não queria mais correr o risco de encontrar novamente consigo mesma em lugar algum.

Parte 2 – Olhares

Na rua, o sol parecia mais cruel que de costume. Golpeava sua pele inflamada, que latejava, ardia em vermelho vivo. Maria caminhava encolhida, tentando se esconder no próprio corpo, mas não havia sombra suficiente para protegê-la.

Os vizinhos a olhavam de lado, mais assustados que curiosos. Até imaginou que quisessem ajudá-la, mas os olhares eram de repulsa, não de empatia. Alguns cochichavam, outros paravam de falar assim que ela passava. Mães preocupadas cobriam o rosto dos filhos, religiosos se benziam e o silêncio repentino era, talvez, mais aviltante que qualquer insulto.

A luz e o calor começaram a machucá-la tanto que, procurando abrigo, Maria correu para a casa do primeiro conhecido que lhe cruzara o caminho. No entanto, todas as portas fecharam-se diante de sua presença. Resmungando de dor, voltou, arrastando-se, para a residência que sentia já não ser sua. Enquanto procurava um lençol para cobrir suas feridas, perdeu-se em pensamentos no bairro onde tinha deixado a sua infância. 

Ali tinha aprendido a andar de bicicleta, a cair nos buracos do asfalto, tinha brincado com as crianças, frequentado a igreja local, tinha feito amigos e conhecidos. Agora, até as fachadas das casas pareciam erguer-se contra ela, como se representasse um perigo iminente.

Uma garota a apontou com o dedo e perguntou ao pai quem era “aquela mulher”. O homem, um ex-namorado de infância de Maria, apenas puxou a menina pelo braço e afastou-se depressa. Tais atitudes causavam-lhe uma gastura tão grande na alma, que somava-se ainda à insuportável ardência de sua pele. Sentia-se em um corpo estranho, transplantado para um lugar que não lhe pertencia, e sua própria existência parecia destinada ao sofrimento.

Não teve coragem de voltar ao quarto onde tudo havia começado. No sofá da sala, após tomar muitos analgésicos, pegou no sono. Pela manhã, ao perceber que aquilo tudo não havia sido um pesadelo, decidiu que não sairia mais de rosto descoberto. Improvisou uma máscara de papelão e com pedaços de pano vestiu-se com uma segunda pele. Quem sabe pudesse enganar os outros. Quem sabe, a si mesma.

Parte 3 – Reflexos

De corpo e rosto cobertos, Maria ficava mais confortável. As atitudes de repulsa ainda persistiam, talvez devido ao cheiro que exalava. Mas, abrigada sob os tecidos e o papelão, a sensação de estar oculta trazia-lhe algum consolo. Mesmo assim, procurava caminhar com pressa. Desviava das pessoas e as pessoas desviavam dela, como se estivesse contaminada por algum segredo infeccioso.

Um dia, ao atravessar a rua, alguém esbarrou em seu ombro. Em vez de um pedido de desculpas, a única coisa que Maria viu foi expressão de nojo naquela face, cujo dono tentava limpar-se freneticamente. Ao redor, notou que as outras pessoas também a olhavam com espanto e afastavam-se com medo. Foi então que percebeu: o choque havia feito a máscara deslizar de seu rosto, caindo ao chão.

Em desespero, Maria procurou-a angustiada. Ao encontrá-la atrás de si, ajoelhou-se para pegá-la com as mãos atônitas, tentando cobrir-lhe as feridas. Quando levantou, deu de cara com o próprio reflexo no vidro frio de um carro estacionado. Ali, viu-se inteira.

A princípio, recuou, esperando vislumbrar um monstro. Mas o que encontrou foi outra coisa: um rosto que não era mais o seu. Transformado. Estranho, sim. Mas belo. A pele marcada parecia ter criado novos contornos, quase uma textura própria, como se tivesse sido reinventada à sua revelia. Ela permaneceu paralisada, o coração pulsando mais rápido que o medo. Pela primeira vez, não sentia vergonha de seu reflexo. Sentia alívio.

O vidro começou a descer.

No banco do motorista, uma figura definiu-se devagar. Um homem que a observava, provavelmente, desde o início da confusão. Maria apertou os olhos para certificar-se do que via.

O homem também usava uma máscara. Lentamente, a retirou. Maria sequer respirava.

Um rosto igualmente marcado, igualmente deslocado, igualmente estranho. Mas belo. E enquanto as máscaras escorregavam de suas mãos, um para o outro, eles sorriram.