Entre Sinais

por Raphael Gybak

conto publicado na Edição n.º 48 da Revista Sucuru

8h12. A cidade pulsa no tic-tac imaginário dos relógios digitais.

Ele aperta os passos, mal segurando o copo de café e a pasta que a pele já bebe em suor. Do outro lado da rua, ela dança no mesmo ritmo. O celular entre os dedos, digitando para o chefe a batida canção das justificativas, maldizendo em refrão a demora do ônibus e o salto que morde o concreto a cada metro.

08h15. Finalmente alcançam o semáforo, calçadas opostas, o mesmo segundo demorado. Vermelho. Os automóveis cruzam o asfalto com ferocidade. Contra a lógica racional da pressa, suspiros inúteis se entregam em coro.

Ele olha o relógio, depois o sinal. Depois o relógio de novo. Ela olha o celular, depois o sinal e o celular novamente. No descompasso do destino, até o cotidiano parece coreografado.

O sinal verde pisca. 8h16. Eles avançam — ou, melhor, disparam como cavaleiros de guerra num campo de batalha.

No meio da faixa de pedestres lotada, o encontro inevitável: um tropeço, um golpe, um celular caindo, um copo voando, uma pasta se abrindo como leque no ar. Papéis, chaves, moedas. Tudo pelo chão. A camisa dele, o blazer dela, agora estampados de mapas mornos pelo acastanhado amargo do café.

Ela vocifera um resmungo. Ele sussurra um palavrão.

Abaixam-se. Acima, os transeuntes reclamam e desviam para não atingir os corpos abatidos, que se dobram na tentativa de garimpar os pertences. Quando levantam, os olhares se cruzam.

Por um segundo, o tempo perde o fôlego. O ruído da cidade engole a própria cauda. Pedestres, carros, sons, o próprio movimento — tudo congelado numa redoma surda e invisível.

Na verdade, apenas um motorista, isolado em sua bolha de metal e vidro, no ócio do semáforo fechado e ao som de uma balada romântica, ousa refletir: "alguns amores começam assim".

8h17, porém. Começam os gritos.

— Olha por onde anda, pô! — diz o homem, recolhendo os últimos papéis.

— Você que me atropelou, seu idiota! — rebate a mulher, conferindo se a tela do celular está quebrada. As mãos, trêmulas de raiva.

— Tô atrasado, caramba!

— E eu tô de passeio, né?

Cada um segue para um lado. Passos rápidos, corações acelerados. Não de amor, mas de pressa.

8h18. Deixam para trás o semáforo — verde para os motoristas, vermelho para eles. Os carros passam, o tempo passa, a vida passa. Tudo é indiferente. Como sempre.